Governos incentivam uso da bicicleta, mas faltam segurança e fiscalização

Em 20/04/2018
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Em mil oitocentos e dezessete, o inventor alemão Karl Von Drais criou um objeto de duas rodas batizado de “máquina de correr”. A criação passou por várias melhorias e, em pouco tempo, ficou conhecida com o nome que a gente usa até hoje: bicicleta. Duzentos anos depois, e com mais de um bilhão de exemplares fabricados em todo o mundo, esse meio de transporte é visto não apenas como um invento genial, mas uma alternativa segura, barata, saudável e ecológica para o meio urbano.

No Brasil, ela é muito popular e os Governos têm aos poucos melhorado a legislação e ampliado a infraestrutura para ciclistas. Segundo o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco, Rafael Amaral Tenório, atualmente a bicicleta é fundamental para planejar a mobilidade das cidades.

Não existe projeto de mobilidade hoje que não leve em consideração o modal bicicleta, e acredito que seja um caminho sem volta, porque é muito complicado, diante da limitação que existe de investimento, conseguir um resultado imediatista, mas que a médio e longo prazo a gente vai conseguir ver, mesmo em âmbito nacional, o impacto dessas implantações de ciclovia, e o resultado do modal bicicleta sendo cada vez mais absorvido, a exemplo como já existe em grandes cidades da Europa.”

Mas apesar dos avanços, em geral, as condições de pedalar no Brasil estão longe de ser satisfatórias, e quem diz isso são os próprios ciclistas. De acordo com a pesquisa Perfil do Ciclista, coordenada pela ONG Transporte Ativo e publicada em dois mil e quinze, metade dos usuários brasileiros pedalaria mais se houvesse uma infraestrutura melhor. De acordo com Pedro Guedes, integrante da Associação Metropolitana dos Ciclistas do Grande Recife, a Ameciclo, as políticas públicas para uso da bicicleta em Pernambuco têm se voltado mais ao lazer do que à mobilidade. Ele defende o aumento dos investimentos em ciclovias.

Os investimentos feitos têm sido sempre em ações no final de semana ou em dias específicos para fazer eventos usando a bicicleta como plataforma, e a gente tem evidência de uso muito grande da bicicleta para transporte já hoje em vários pontos da Região Metropolitana, e nenhum ponto desses recebeu, por exemplo, um investimento em ciclovia.”

Em Pernambuco, a política de uso da bicicleta passa pelo Plano Diretor Cicloviário da Região Metropolitana do Recife, o PDC, um documento lançado em dois mil e catorze que define as diretrizes para a ampliação da rede de ciclovias na região. A pesquisa que fundamentou o PDC traz algumas pistas sobre o perfil do ciclista do Grande Recife. Ela mostra que cinquenta e oito por cento das viagens feitas com bicicleta têm como destino o trabalho. Três em cada quatro ciclistas é trabalhador e usa o meio de transporte entre sete e oito da manhã e entre cinco e seis da tarde.

É com foco nesse público que o PDC prevê a construção de quase seiscentos quilômetros de ciclovia em toda a região, como explica o gerente de ciclomobilidade da Secretaria Estadual de Turismo, Esporte e Lazer, Jáson Torres.

Em torno de cinquenta e cinco por cento de responsabilidade do Estado, através das ciclovias metropolitanas, e o restante dos municípios, através da estrutura complementar. Além disso, nós temos também uma obrigatoriedade nessas diretrizes de colocar estacionamentos para bicicleta através de bicicletários, vinculados ao sistema de transporte público.”

O PDC prevê investimentos do Estado e dos municípios de trezentos e cinquenta e cinco milhões de reais até dois mil e vinte e quatro. Se os investimentos saírem do papel, pode haver impacto positivo na mobilidade, mas também em outras áreas, como a saúde pública. A razão para isso é que o uso diário da bicicleta, assim como outras atividades físicas, ajuda a combater males como dores, diabetes e hipertensão. E ela pode facilmente ser incluída no dia a dia, como explica o cardiologista do Hospital das Clínicas da UFPE Frederico Ribeiro.

Uma das estratégias que tem dado certo em alguns trabalhos é que você utilize a prática física na sua rotina diária e é aí onde entra a bicicleta, e é aí onde entra você utilizar a bicicleta como um meio de transporte agradável, como um meio de transporte eficaz. O grande problema é incutir isso na vida diária, como é que eu vou ter uma ciclovia segura ou uma andada segura para o trabalho e de volta para casa, como é que eu vou conseguir fazer esse deslocamento sem correr riscos de ser atropelado, de sofrer acidentes de carro, a educação dos motoristas para respeito aos ciclistas e vice-versa…”

Mas antes de tirar a bicicleta da garagem, o médico faz algumas recomendações. Para quem é sedentário e tem mais de quarenta anos, é preciso passar pela avaliação de um cardiologista. E para todas as idades e condições físicas, o ideal, de acordo com o médico, é usar luvas, capacete e fazer a manutenção periódica da bicicleta.